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Os Crimes Moram na Prateleira



Por Antonio Filho

na estante
está o livro que ontem procurava-se vivo ou morto
moedinhas e sua inutilidade indispensável

na estante
a poeira se acumula sobre os preservativos
amanhã passarei o espanador de plumas sobre nossa relação estável

na estante
estampam-se revistas pelas quais não iremos passar a vista em suas páginas amarelas
entrevistas nas entrelinhas não são mais que o que se menos precisa

na estante
há um frenesi de contas, notas fiscais e cartões de visita
ontem mesmo o telefone tocou e a lâmpada do banheiro permanece piscando irritantemente

na estante
há dois gatos com um só defeito nos olhos
um é caolho por nascimento e morte e o outro treme incontrolavelmente o olho esquerdo enquanto acompanha o voo de uma mosca

na estante
as coisas significam-se frágeis
equilibradas enquanto lá fora chove

as coisas permanecem na estante
túmulo temporário do caos

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