Os Crimes Moram na Prateleira
na estante
está o livro que ontem procurava-se vivo ou morto
moedinhas e sua inutilidade indispensável
na estante
a poeira se acumula sobre os preservativos
amanhã passarei o espanador de plumas sobre nossa relação estável
na estante
estampam-se revistas pelas quais não iremos passar a vista em suas páginas amarelas
entrevistas nas entrelinhas não são mais que o que se menos precisa
na estante
há um frenesi de contas, notas fiscais e cartões de visita
ontem mesmo o telefone tocou e a lâmpada do banheiro permanece piscando irritantemente
na estante
há dois gatos com um só defeito nos olhos
um é caolho por nascimento e morte e o outro treme incontrolavelmente o olho esquerdo enquanto acompanha o voo de uma mosca
na estante
as coisas significam-se frágeis
equilibradas enquanto lá fora chove
as coisas permanecem na estante
túmulo temporário do caos


