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Sonata dos Punhais ensaio sobre o livro de Francisco Carvalho

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Por Antonio Filho

Acho que tantos livros mereciam umas palavras... Mas é preciso começar por um de tantos. E começarei por este SONATA DOS PUNHAIS, publicado em 1994 pelo Programa Editorial Casa de José de Alencar da UFC. Há tempos que o li, um livro no mínimo impressionante, um livro considerado menor frente a obra do autor, um livro inesquecível. Nele, ou por ele, Francisco Carvalho transporta-se em sua temática quase infinita, não fosse a avareza que ele mesmo diz ser incapaz de transliterar-se em poesia. Nele Francisco canta, ao tilintar das lâminas de sua voz de anti-cínico, a condição precária da vida humana. O que nos poria obrigados a ler o soneto BALADA DO ESPÓLIO (pág. 75).

Balada do Espólio
A Jaci Bezerra

Nossos haveres são messes de palha
são pastagens de vento os nossos olhos.
Até o amor e as plumas da mortalha
tudo pertence à traça dos espólios.

Dividimos a herança com quem passa
sangue e areia no instante da partilha.
O celeiro de espantos, a trapaça
e os dentes amarelados da matilha.

Dividimos o ouro das arcadas
o fel da fala, os pastos do litígio
e as vestes ensopadas de luxúria.

Dividimos o pânico, as escadas
o andor da morte, as arcas do prodígio.
Repartimos o horror, menos a fúria.

Acredito que aqui vale uma observação sobre a forma adotada para os poemas desse livro. É sabido que Francisco Carvalho é comumente enquadrado na Geração de 45 ou simples herdeiro dessa tradição poética. os poemas todos, com menos de
uma dezena de curtas estrofes, não ultrapassam duas páginas, sendo que a maioria são de apenas uma página. Como se houvesse uma motivação formal entre o título e a forma dos poemas. Entre a sonata/soneto e os punhais, e a série de curtos poemas que compõem o livro.
Francisco Carvalho
É considerável a presença de sonetos neste livro. E são, provavelmente, a principal experiência formal do poeta nesta obra. Vejamos que, além do exemplo de A BALADA DO ESPÓLIO há outros menos tradicionais como um todo em dísticos, com sete estrofes de apenas dois versos:

Retrato
a Caetano Aragão

O retrato ainda exala uma arrogância
nas longas barbas de senhor feudal.

Ainda preserva os signos da distância
entre a sombra do morto e o serviçal.

O retrato regressa aos seus domínios
demora o olhar na plantação de arroz.

Pastoreia a volúpia dos meninos
enquanto o inverno jorra do algeroz.

Vai ao quarto das moças, certo quarto
que recende a pecado e alfazema

e põe ardil nos olhos do retrato
odor de argúcia achado numa lenda

O retrato ainda exala certa fúria.
Certo aroma de incesto e de luxúria.

Em O Retrato Francisco ainda mantém os decassílabos heróicos, no entanto, com algumas irregularidades que ao contrário de se configurar em defeito, enriquecem ainda mais, com uma melodia menos rígida, a dura temática do poema. Fato que já não ocorre em A Onda é um Pássaro (pág. 14), certamente por ser um poema de um lirismo muito mais idílico e de feição claramente paisagística, o poeta adota forma e ritmo diversos em versos heptassílabos, embora mantenha a estrutura de sete dísticos.

A Onda é um Pássaro

Na tarde feita de conchas
a onda é uma ave que canta.

Chegam do mar asas tontas
roçando a espuma brilhante.

Na tarde azul se desenha
mapas de incestos e insídias.

Chegam do mar e das brenhas
gaivotas enfurecidas.

Todas as sombras velozes
desse mar de profecia.

Sombras de gestos e vozes
naufragadas num só dia.

Na tarde feita de espumas
anjos se estupram nas dunas.

Um poema de forte tensão erótica e dilaceradora. nele o poeta enxerga a composição em pleno movimento, e, não obstante a beleza do quadro, registra tudo em lentes telescópicas. E tudo corta a paisagem com violência e velocidade.

Outro poema dentro do esquema de sete estrofes de dois versos é Lenda do Pêssego (pág. 31). Outro poema de grande conotação erótica. Nele, o poeta se vale de suas principais armas de artífice da palavra mágica: a sinestesia. O poeta mistura os sentidos do leitor, num paroxismo de informações sensoriais. E tudo dentro de um ritmo misterioso, versos de uma melodia fluida e fugidia. O que poderia sugerir-nos que o poeta se inspirou nos antigos alexandrinos espanhóis. Este, um poema no mínimo intrigante e aqui o transcrevo para que o leitor possa chegar às suas próprias conclusões.

Lenda do Pêssego

Orelha do livro Sonata dos Punhais
Taça de cedro, borra
de vinho sacrílego.

Urna de argila
negra, cálice de usuras.

Curva sutil da outra
metade do seio.

Olhos de terracota
fixo na compota.

Sílaba de barro
de algum hino tribal.

Talismã cego
dos hinos órficos.

Tatuagem de sangue
na curva da nádega.

Mas a sonata de carvalho não é feita apenas de erotismo. Neste livro, acredito, Francisco Carvalho é um poeta de condição humana profundamente atormentada. nele, isto é, em sua poesia há um profundo espanto frente a essa fragílima existência do homem sobre a terra. tanto que os personagens do seu teatro de agonias, "o vento, o tempo, os rios, a noite, o sexo", metáforas umas das outras, assombram-lhe incansavelmente o texto. na verdade, repetindo o que dissemos no início, o poeta carvalho expressa seu profundo pesar frente à precariedade da existência humana. o poeta chega ao ponto de revoltar-se contra essa condição e entende que, não fosse a crença na superioridade divina ou na prometida recompensa que ela representa o homem provavelmente estaria fadado à completa dilaceração e mútua destruição. portanto, aqui, sugiro a leitura de dois poemas o Soneto da Fúria (pág, 81) e Girassol (pág. 100).

Soneto da Fúria
a Sânzio de Azevedo

Nossas vidas não passam de utopias
volúveis como as roupas no varal.
De espera e adeus são feitos nossos dias.
Cada qual é seu próprio canibal.

Duras e amargas são as nossas vias.
Até o amor é anseio pendular
(crispação de tristezas e alegrias).
Somos adubo e exílio do avatar.

Nosso nome é exilado numa pedra.
Nossa glória é a vertigem dum momento
vogal de sangue escrita em lousa espúria.

A dinastia da morte nos celebra
com seus penachos de elegia e vento.
Só Deus aplaca a sede e nossa fúria.


Girassol

O vento chega do mar
o aroma dos seus vestidos
o girassol da janela.

a vida jorra do corpo
sangue que amola os punhais
o girassol na janela.

A água respira o éter
o vento arranca os teus seios
o girassol na janela.

A morte planta o seu caule
numa planície de sangue
o girassol na janela.

a noite dorme nos pássaros
a terra canta nos veios
o girassol na janela.

Os lobos uivam na escarpa
cantam pardais nos teus seios
o girassol na janela.

Agora estão todos mortos
as tumbas de olhos abertos
o girassol na janela.


Não devia dizer, mas farei mesmo sob o risco do erro, que é obrigatório e salvadora da condição humana, que a dimensão da poética carvalhana é a profunda e circunspecta existencialidade. E essa dimensão, essa condição maior de sua poética está em cada poema seu. Francisco, homem e poeta, pergunta-se, contempla-se em si mesmo, nos outros homens e na ilusão das representações. Consideramos assim, porque estão presentes quase que obsessivamente os espelhos, os retratos, as esfinges, os desenhos, os olhos e o próprio olhar do poeta, na escrita de grande parte dos poemas do livro. São exemplares os poemas Poema de Duas Faces (pág. 101), Versos Obscuros (Pág. 113) Pastor de Colméias (PÁG. 119). E aqui transcreveremos Canção da Esfinge (pág. 112).

Canção da Esfinge

Estou parado na esquina
pra ver a esfinge passar.
Chove sangue a noite inteira.
Um lobo espreita o luar.

Ouço o grito da donzela
vindo da noite ou do mar.
A mesma que foi levada
pra algum rei deflorar.

O negro uivo dos lobos
parte a argila do alguidar.
A esfinge desce do abismo,
vem de perto nos fitar.

Passa o cavalo do arauto
em seu galope galopar,
levando a triste donzela
que o rei não quis deflorar.

Aqui fizemos uma leitura de alguns poemas de Francisco Carvalho. Tentamos, na verdade, dar pistas de leitura, pistas de decifração da esfinge poética que sempre será Francisco Carvalho. Além do mais, sincera e humildemente esperamos que esse pequeno portal de arte seja uma espécie de refúgio para leitores que tenham curiosidade pelo novo e pelo diferente que foi e está sendo feito no meio literário cearense.

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* Este ensaio foi originalmente publicado no blog A Tapioca, no dia 07 de outubro de 2007, portanto, há mais de 3 anos. Os ensaios passam, mas a poesia de Francisco Carvalho, certamente, merece ficar.

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