Iaiá Garcia

Como o Machado de Assis desenha bem o caráter de um personagem!... Olha a genialidade desse parágrafo do segundo capítulo de Iaiá Garcia:
Valéria acertava quando dizia não achar no filho nenhum amor à profissão de advogado. Jorge sabia muita cousa do que aprendera; tinha inteligência pronta, rápida compreensão e memória vivíssima. Não era profundo; abrangia mais do que penetrava. Sobretudo, era uma inteligência teórica; para ele, o praxista representava o bárbaro. Possuindo muitos bens, que lhe davam para viver à farta, empregava uma partícula do tempo em advogar o menos que podia — apenas o bastante para ter o nome no portal do escritório e no almanaque de Laemmert. Nenhuma experiência contrastava nele os ímpetos da juventude e os arroubos da imaginação. A imaginação era o seu lado fraco, porque não a tinha criadora e límpida, mas vaga, tumultuosa e estéril, dessa que dá ao escrito a indecisão dos contornos, e à vida a confusão dos atos. Era generoso e bom, mas padecia um pouco de fatuidade, vício de terceira ordem que diminui a bondade nativa. Havia ali a massa de um homem futuro, à espera que os anos, cuja ação é lenta, oportuna e inevitável, lhe dessem fixidez ao caráter e virilidade à razão.

