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Conto Inédito de Carlos Emílio Correia Lima Enviado por E-mail


Alô, alô, malungueir@s de plantão (se é que os há)! Acaba de chegar, quentinho do formo do tempo, e-mail contendo conto inédito de Carlos Emílio Correia Lima. Amig@s, amig@s, postagens à parte. Com ou sem autorização do autor, vai reproduzido abaixo o e-mail tal e qual como veio. E vou logo lhes avisando, ninguém sai sem lamber as feridas depois de um conto do Carlos Emílio. Portanto, apertem o cinto e sintam a força caudalosa da literatura emiliana!
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18/12/2010 20:21:00
Viagem


Por Carlos Emílio C. Lima

Eis mais um conto inédito do livro Solário que estou aqui no Cronópios publicando em folhetim: é o Viagem, escrito em Fortaleza, no teclado etimológico da amiga Underwood, em 1970, aos 14 anos, e que continuava incólume numa gaveta de minha mesa-de-escrever. Mantenho a acentuação básica porque me parece misteriosamente poética essa linguagem em que escrevíamos numa ortografia mais próxima dos sulcos, da precisa imanência mitosonora da língua. Confesso, admirado, que não retiraria ainda hoje uma única palavra do conto... Depois do texto segue o seu retrato, a sua fotografia em arquivo anexo. Como a página original é maior que as possibilidades espaciais do escaner de que me utilizo, ele vai não totalmente coberto pelos sensores desse futuro presente.

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VIAGEM

O corpo pesando mais. Como em todas as manhãs. Os raios do sol pela fresta da janela quebrada e consumida pelo tempo. A janela feita uma mala sem fundo, onde o fôrro é a própria profundidade. Essas metáforas absurdas sempre lhe vinham à cabeça nesses momentos de resto de sono quando olhava para as coisas inúteis em volta de si. Essas metáforas, esse calor de aço, em todas as manhãs. Agora, a partir de amanhã, vai acordar mais cêdo, para não ser novmente expulso da cama tão asperamente pelas garras de aço do calor. Com uma resolução tomada já é aconselhável levantar-se de uma vez. Os chinelos estão embaixo da cama sobre o assoalho amarelo de sempre.
Um ligeiro esforço e pronto, está liberto das amarras de tédio que o sono prolongado criou. Agora resta firmar-se nas pernas, alimentar-se do luminoso cheiro dessa manhã. Ah! As manhãs. As manhãs de sempre. Os passos de sempre até o corredor de sempre, até o banheiro, do banheiro até a sala, da sala até a cozinha de sempre com a mesma mesa. Tôda essa repetição de fatos, essa incessante e nefasta repetição de fatos e acontecimentos lhe marca. Marca profundamente. Mas a comida já está pronta... E o lento gorjeio das chamas do fogão, o cortante assobio do calor a cortar a superfície do vento no interior do espaço da cozinha, impregnam a atmosfera de esquecimento. A empregada veio cêdo e foi logo embora, mas esqueceu o forno aceso, irresponsável... Mas só adianta esse resmungo baixo e entediado, adianta para afastar por um momento as moscas das proximidades do rosto, para que não entrem nos olhos. Mastigar como sempre. Agüentar a comida horrível que se pulveriza na boca, o café preto e quente imprensando a língua contra a mandíbula. E continuar a comer até o fim, o pão sêco, deixado há anos na despensa, talvez criado pelo próprio tempo dada a acumulação de poeira nas prateleiras. Esse pão nunca foi de trigo, é torrão de terra, arma do tempo, uma das maneiras que o tempo utiliza para apressar o destino, forma de envenenamento imprevisto... Não será, no entanto hoje que morrerá de súbito. Possui auto-domínio. Conhece e sabe discernir, optar sobre o que deve fazer, seus gestos imediatos. O pão jogado fora. O melhor modo de destruir essa diabólica arma do tempo. E abrir a janela como sempre e admirar o dia... Vislumbra a sala com fixidez. A sala é quase um prolongamento da cozinha. Os móveis estão mofados e mal conservados. O calor imobiliza as coisas da sala, transmite inércia e imobilidade ao ambiente. Mas isso só por enquanto, por pouco tempo pois logo a janela estará aberta, um ar mais puro invadirá o interior da casa, desimobilizará as coisas num sopro de vento. O tempo em que caminha até a janela é curto. Necessário apenas para notar que continua despido e que está repleto de suor. Tem uma grande estatura. Ao andar até a janela é como se estivesse numa esteira rolante, os objetos pequenos, o chão quase como a superfície de louça de um prato. Apoia-se no joelho, sobre uma cadeira que há tempos vive encostada na parede debaixo da janela. Os braços postos à média altura para levantar a tranca. A tranca retirada de sua antiga posição, de seu pequeno sepulcro, a maçaneta girada com uma espécie de carinho lento, o ruído da janela presa ao parapeito como um ruído de sufocação. A janela sendo forçada. O ruído angustiante penetra na sala, quase humano. O medo sem sentido de quem sente que de repente vai divisar o absurdo. “Esse ruído só pode ser um aviso”...

A janela aberta. Uma camada rápida de poeira oscilante, entre seus olhos e o espaço exterior, fora de casa. Por um segundo se esquece do pressentimento e do ruído. Fica a imaginar que a rua, do lado de fora, estará como sempre, um rio sêco, de pedregulhos, restrito a ínfimos limites. Um leito sêco de um rio de pedras, morto, cortado de suas possíveis origens e de sua possível foz, sem fim e sem origem, como um beco. Mas só por um segundo... Depois a confirmação de seus pressentimentos, de suas apreensões. O absurdo descortina-se ante seus olhos. Nem rua, nem beco lá fora. Só um imenso silvar, um imenso assovio. A distância enorme, a planície imensa no lugar do beco. O repentino silvar do que surge infinito ou do quase infinito, a visão súbita do gigantescamente profundo. O assovio até longe, até onde vai a vista, acompanhando os sulcos da terra dura e seca, até o horizonte. A casa mudara de lugar, é como se estivesse em outro mundo, incrustada no incognoscível. Um pesadelo vindo em silêncio, arquitetado pelo tempo, diabolicamente arquitetado pelo tempo durante a noite. Pesadêlo. A planície estendia-se fantástica e muda. A planície...

A porta não foi aberta. O pulo foi pela janela. Contagiado pela premência do absurdo caminhou desordenadamente. As coisas que aconteceram, as coisas que não aconteceram, como sempre, como deveriam ter acontecido. As coisas, o pesadélo, a planície... Não sabia para onde ir. Aliás, num pesadelo nunca se sabe para onde ir. Mas iria em qualquer direção. Pisava no chão com dificuldade. Aquêle chão morto, desprovido de vida vegetal ou animal. Pisava e feria os pés, mas isso não o incomodava. Incomodava era o silêncio. Incomodava era sua casa perdida,como se houvesse voado de um ponto a outro qualquer , como um pássaro concreto. A casa como um ponto, desprovida de suas vizinhanças e de sua cidade, encravada no deserto imenso. E de repente surgiu a idéia de que a casa não havia mudado para outro mundo, que o mundo é que ruíra e se pulverizara ao redor...


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Carlos Emilio C. Lima é escritor, poeta, editor, ensaísta, antidesigner, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado em literatura espanhola na Universidade de Yale. Editor de inúmeras publicações literárias tais como a revista o Saco Cultural, a revista Cadernos Rioarte, o jornal Letras&Artes (prêmio da APCA para melhor divulgação cultural do país em 1990), a revista triangular Arraia Pajéurbe. Correpondente da revista espanhola El Passeante no Rio de Janeiro. Publicou os romances A Cachoeira das Eras, A Coluna da Clara Sarabanda (editora Moderna, 1979), Além Jericoacoara, o observador do Litoral (Nação Cariri editora,1982), Pedaços da História Mais Longe, 1997, com prefácio de José J.Veiga e apresentação de Braúlio Tavares (editora Impressões do Brasil, 1997), Maria do Monte, O romance inédito de Jorge Amado (Tear da memória editora, 2008). Ver a versão eletrônica aqui no Cronópios nesta mesma coluna Constelação de Saliva do mesmo "livro" com o título O romance inédito e esquecido de Jorge Amado na voz da velha e negra senhora, os livros de contos Ofos (Nação Cariri,1984), O romance que explodiu (editora da Universidade Federal do Ceará, 2006, com orelha de Uilcon Pereira). O livro ensaístico Virgilio Varzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso (cooedição da Editora da Fundação Cultural de Santa Catarina e da Universidade Federal do Ceará, 2002). Tem ainda inéditos os livros Culinária Venusiana (poesia), Delta do rio suspenso (ensaios), A outra forma da Ilha (contos fantásticos), Teatro submerso (dramaturgia para o fundo do mar), Solário (contos infantis) de onde vem também o texto acima. E-mail: carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br.

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